Se o mercado de tecnologia já enfrentava obstáculos para recrutar talentos, a era da inteligência artificial elevou a régua de vez. Hoje, 98% das médias e grandes empresas brasileiras relatam dificuldade para encontrar profissionais qualificados, segundo um levantamento realizado pela Ford em parceria com o Datafolha.
O estudo, que ouviu 250 líderes de RH e TI de diversos setores e regiões do país, aponta que as cadeiras mais difíceis de preencher são as de especialistas em IA (35%) e engenheiros de software (31%). “O descompasso entre a velocidade da inovação e a disponibilidade de profissionais qualificados é um dos grandes desafios do mercado hoje”, afirma Pamela Paiffer, diretora de comunicação e responsabilidade social da Ford na América do Sul.
Até 90 dias para preencher uma vaga
Esse gargalo tem impacto direto no relógio corporativo. Para metade das companhias, preencher uma vaga de tecnologia leva de um a dois meses, podendo chegar a 90 dias em um quarto delas. O principal fator por trás disso é a escassez técnica, citada como o maior desafio por 72% das empresas, seguida pela falta de experiência (54%).
Habilidades em segurança da informação e machine learning estão entre as mais difíceis de encontrar no mercado, segundo os executivos. “O desafio das empresas é duplo: investir em tecnologia e, ao mesmo tempo, desenvolver talentos e fortalecer sua base de dados”, diz Djalma Brighenti, diretor de TI da Ford América do Sul.
Mesmo nesse cenário de escassez de talentos, engana-se quem pensa que dominar as linguagens de programação garante o contrato assinado. A pesquisa mostra que 78% das organizações desclassificam candidatos sem domínio do inglês, e 37% frequentemente rejeitam profissionais com currículos tecnicamente impecáveis, mas que não demonstram soft skills.
Entre as competências socioemocionais que os recrutadores mais sentem falta nos profissionais do mercado de tecnologia, estão inteligência emocional e pensamento crítico para resolver problemas. “É preciso ir além da qualificação técnica”, afirma Fernanda Ramos, diretora de recursos humanos da Ford América do Sul. “A demanda por essas soft skills é imensa e continuará crescendo.”
Não por acaso, as projeções corporativas para os próximos dois anos reforçam que o fator humano será o verdadeiro diferencial. Embora a IA seja apontada como o principal motor de mudança para 46% dos líderes, metade deles prevê que as soft skills serão ainda mais difíceis de encontrar no futuro do que a bagagem técnica. “Para que a IA entregue valor real, é preciso ter profissionais preparados para transformar informação em decisão”, afirma o diretor de TI da montadora.
