Quase Metade dos Brasileiros Trabalha em Ambientes de Insegurança Psicológica

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Apesar do avanço do debate sobre saúde mental no Brasil, a situação no ambiente corporativo conta outra história. Segundo um novo estudo da Vittude, plataforma de terapia online, que ouviu 174 mil profissionais em 35 grandes empresas, 45% dos profissionais brasileiros trabalham em ambientes de insegurança psicológica. “Sempre existe uma pessoa que vira alvo de comentários; alguém que é interrompido enquanto fala; ou alguém que até fala, mas nunca é levado em consideração”, explica Tatiana Pimenta, fundadora da Vittude. “A forma como as coisas acontecem no dia a dia cria uma atmosfera de medo.”

O levantamento reuniu dados coletados ao longo de 2025, com profissionais de diferentes áreas, níveis hierárquicos e contextos organizacionais, em companhias distribuídas por todas as regiões do país. Entre as que tiveram os melhores resultados de segurança psicológica no trabalho, de acordo com Pimenta, estão RD Saúde, Adidas e Sodexo.

O estudo também indica que 37,8% da força de trabalho apresenta sintomas de sofrimento psíquico, sendo quase 15% em nível severo. Cerca de 15% dos respondentes relataram ideação suicida; aproximadamente 6% apresentaram alta probabilidade de desenvolver burnout.

Crise de saúde mental

O cenário de crise é corroborado por novos dados do Ministério da Previdência Social: em 2025, foram registrados mais de 546 mil afastamentos por questões de saúde mental, o segundo recorde da série histórica dos últimos dez anos. “Isso indica uma piora ampla das condições de saúde mental no trabalho”, observa Pimenta.

Além dos riscos psicossociais aos profissionais, há impactos diretos e mensuráveis para os negócios. Mais precisamente, uma perda de US$ 8,9 trilhões (R$ 46,7 trilhões) à economia global anualmente, segundo um relatório da consultoria Gallup. “A insegurança psicológica inibe a troca aberta, reduz a qualidade das decisões, enfraquece a colaboração entre equipes e limita a capacidade da organização de inovar e se adaptar em cenários de mudança.”

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Assédio no trabalho

Entre os profissionais ouvidos, 17% relataram ter sofrido ou presenciado situações de assédio no ambiente de trabalho. Desses casos, 72% são classificados como assédio moral. “Vai além de uma crítica construtiva e passa a ser algo agressivo, humilhante e, principalmente, recorrente”, explica Pimenta.

Já o assédio sexual representa 28% dos casos relatados. “Pode ser um convite indesejado, um toque inadequado, cantadas, piadinhas ou um abraço fora de contexto. Tende a atingir principalmente mulheres.”

Entre 78% e 84% dos episódios de assédio não são denunciados, mostra o levantamento. “O silêncio não nasce apenas do medo, mas também da descrença nos canais de denúncia, da normalização de comportamentos abusivos e da ausência de segurança psicológica mínima que permita às pessoas se posicionarem sem receio de retaliação.”

Como identificar um ambiente tóxico?

Para medir o nível de segurança psicológica nas empresas, o estudo analisou cinco pilares, considerando diferentes níveis de relação: do indivíduo com a empresa, com os pares e com a equipe.

A seguir, veja como identificar cada um dos pilares analisados pela pesquisa e reconhecer sinais de um ambiente psicologicamente inseguro:

1. Autonomia

“A autonomia está diretamente ligada à sensação de poder errar. Se toda vez que alguém erra sofre punição, críticas severas ou impactos negativos na avaliação de desempenho, não existe segurança psicológica.”

2. Suporte

“Quando eu preciso, eu me sinto apoiado? Às vezes, a pessoa se sente segura para conversar com colegas ou até com o líder, mas não em relação à empresa como um todo.”

3. Equidade

“Ninguém me trata mal diretamente, mas eu observo que um homem é promovido e uma mulher não, ou que alguém ganha mais do que eu”

4. Pertencimento

“Nesse ambiente, eu posso ser eu mesmo? A segurança psicológica está ligada à possibilidade de construir relações interpessoais sem medo de retaliação.”

5. Saúde mental

“Quando a pessoa se sente confortável para falar sobre um problema de saúde mental dentro da organização, isso é um indicativo de segurança. Quantas pessoas já não foram julgadas como fracas, incapazes ou como alguém que ‘não deu conta do trabalho’? Esse tipo de julgamento gera insegurança.”

Como melhorar o cenário de saúde mental no trabalho

Entre os 29% de respondentes que relataram alta segurança psicológica em seus ambientes de trabalho, nenhum deles apresentou propensão ao burnout. “Esses ambientes demonstram maior capacidade de inovação, aprendizado e evolução contínua”, diz Pimenta. “As pessoas se sentem seguras para propor ideias, questionar decisões, oferecer feedbacks francos e sinalizar riscos ou erros.”

A atualização da NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1), que passaria a entrar em vigor em maio de 2025 e foi adiada para maio deste ano, passa a exigir das empresas a identificação de riscos psicossociais e a adoção de medidas para proteger a saúde mental dos profissionais.

A norma prevê ações para garantir que funcionários não adoeçam mentalmente devido à sobrecarga de trabalho, assédio moral ou sexual e ao estresse em ambientes tóxicos. No entanto, muitas empresas ainda não se adaptaram. “Em muitas conversas, percebemos que há empresas que sequer sabem o que é a NR-1”, diz Pimenta. “A maioria das equipes de saúde e RH ainda está bastante desinformada e confusa.”

Outras, no entanto, se destacam por suas ações voltadas para saúde mental. A Sodexo, uma das clientes da Vittude, está entre as companhias mais bem ranqueadas na pesquisa. Além de fortalecer ações de prevenção, a companhia investiu na formação de socorristas e embaixadores em saúde mental. “Ampliamos o uso de dados como apoio à gestão”, afirma Vana Fiorini, diretora de serviços de RH da Sodexo Brasil. “Esse movimento reforçou maior transparência e um papel mais próximo das lideranças no cuidado com as pessoas, ao incentivar diálogos abertos sobre saúde mental.”

Embora os líderes tenham um papel importante de construir e manter um ambiente de segurança psicológica, a responsabilidade é compartilhada. “Começa no indivíduo, mas é papel da empresa capacitar as pessoas e sustentar o debate.”

Para avançar, a empreendedora recomenda que as empresas criem trilhas básicas conectadas à cultura organizacional, explicando valores, comportamentos esperados, o que é segurança psicológica e como construí-la. Também destaca a importância de trabalhar comunicação não violenta, assertiva e boas práticas de feedback. “Não se trata de um workshop isolado, mas de como esses temas entram na organização do trabalho, orientam políticas, estruturam processos e se sustentam ao longo do tempo.”



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