Começa nesta segunda-feira (19) o encontro anual do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça. Há 56 anos, a convenção reúne mais de 100 governos, líderes empresariais de alto perfil, representantes da mídia e figuras-chave dos campos de políticas públicas e negócios.
A cada edição, são debatidos temas que impactarão gerações e a força de trabalho global. Recentemente, claro, as conversas passaram a girar em torno da inteligência artificial e de seus impactos, além da energia verde.
As conversas que se desenrolam no evento e os resultados dessas discussões, se colocados em prática, podem moldar decisões e desdobramentos que irão muito além das manchetes de 2026.
Para este ano, está no radar o avanço da IA em ritmo vertiginoso – mais rápido, inclusive, do que a capacidade de aceleração da governança. O mercado de trabalho também está se transformando rapidamente: certas funções estão sendo despriorizadas, e há uma ênfase crescente em certificações, em detrimento de diplomas tradicionais.
A força de trabalho global está em um ponto de inflexão, e os temas que o encontro de Davos do Fórum Econômico Mundial abordará estão alinhados a essas questões centrais.
O que esperar e observar em Davos 2026
Em seu site, o Fórum Econômico Mundial destaca cinco temas centrais que devem orientar os painéis, discursos e sessões especiais deste ano:
- Como podemos cooperar em um mundo cada vez mais fragmentado?
- Como podemos destravar novas fontes de crescimento?
- Como podemos investir mais nas pessoas?
- Como podemos implementar a inovação em escala e de forma responsável?
- Como podemos prosperar respeitando os limites do planeta?
Abaixo, vamos explorar dois desses temas: os desafios relacionados a investir nas pessoas e a implementar a inovação de forma responsável e em escala.
Como crescer e inovar sem prejudicar as pessoas e o planeta
1. IA responsável envolve criação de empregos
Um dos pilares da IA responsável não é apenas discutir como implementá-la em escala de forma ética do ponto de vista da propriedade intelectual ou mesmo da segurança global em biotecnologia, mas também como proteger a força de trabalho do futuro.
Como continuamos a investir em funções que ainda não existem e a preparar as pessoas para essas funções, para que a força de trabalho não sofra um déficit significativo?
Nesse sentido, os dois temas (“como podemos investir melhor nas pessoas” e “como podemos implementar a inovação em escala e de forma responsável”) estão profundamente interligados.
A IA responsável tem como foco a criação de empregos. Como protegemos a força de trabalho do futuro? A Geração Alpha atingirá idade ativa ao longo da próxima década, com os mais velhos dessa geração chegando aos 18 anos (idade plena para o trabalho) por volta de 2028.
O Fórum Econômico Mundial observa que “a criação de empregos precisará acelerar para absorver o excedente de mão de obra de quase 800 milhões de jovens que atingirão a idade de trabalhar na próxima década”. A organização também destaca que 22% dos empregos atuais no mundo mudarão nos próximos cinco anos, principalmente em função da IA.
Algumas ideias que podem surgir a partir dessa discussão incluem:
- Criação de uma infraestrutura robusta para acelerar a formação de pequenos negócios;
- Investimentos em pequenas empresas sob a ótica do desenvolvimento de talentos, além de apoio financeiro para que elas possam expandir suas equipes;
- Iniciativas padronizadas de requalificação profissional (upskilling) voltadas especificamente a jovens em idade ativa (ou prestes a atingi-la), além da integração de competências em IA responsável como tema ou disciplina no ensino médio e no primeiro ano da faculdade.
Sem uma estratégia sólida de mitigação de riscos para a força de trabalho, qualquer estratégia de IA está incompleta.
2. De onde virão esses novos empregos?
O Fórum Econômico Mundial já previu que, embora 92 milhões de empregos sejam eliminados até 2030 (o que está a apenas quatro anos de distância), cerca de 170 milhões de novas funções serão criadas – um aumento líquido de 78 milhões de postos de trabalho.
Embora essa projeção seja otimista, é fundamental que os delegados se lembrem de que, sem oferecer oportunidades adequadas de capacitação para profissionais em diferentes estágios de suas carreiras, tanto os funcionários quanto os empregadores sairão prejudicados. Isso porque haverá demissões em massa ao mesmo tempo em que se abrirá um grande abismo entre oferta e demanda por talentos.
As discussões nesse sentido devem abordar:
- Quais setores devem ver o surgimento de novas funções;
- Como cargos existentes podem passar por uma reformulação de seus títulos, alinhando-se à natureza do trabalho impulsionado por IA;
- Quais países e regiões podem registrar maior demanda por determinados tipos de empregos, com base em suas economias;
- E como treinar pessoas para empregos que ainda não existem – preparando um pipeline de talentos para preencher essas funções sem atrasos significativos nas contratações devido à falta de profissionais qualificados.
Isso exigirá revisitar quais habilidades serão essenciais para essas funções futuristas, já que competências continuam sendo vitais e muitas delas são transferíveis, independentemente do cargo.
3. Governança de IA responsável x a realidade
Os governos já começaram a dar passos importantes em direção à governança da IA, mas ainda estamos longe de atingir plenamente esse objetivo.
Como exemplo, a chamada “shadow AI” (IA sombra), que define o uso de ferramentas de inteligência artificial não autorizadas nas empresas, é uma ameaça real em muitas companhias. A Gartner observa que 40% das organizações podem sofrer violações de segurança devido à IA sombra, mas muitos empregadores aparentemente não têm consciência de que ela existe em sua força de trabalho.
Segundo o estudo global Value of AI, da SAP em parceria com a Oxford Economics, 8 em cada 10 líderes se preocupam com o uso de ferramentas de IA externas e sem aprovação formal da companhia e do departamento de TI.
A ascensão de softwares de IA indetectáveis em startups levanta questões éticas preocupantes. Existe uma lacuna entre implementar tecnologia em alta velocidade e manter salvaguardas adequadas.
A forma como líderes empresariais, governos e entidades chegarão a um consenso sobre os próximos passos terá impacto direto sobre como a IA será utilizada no ambiente de trabalho nos próximos anos.
O encontro anual do Fórum Econômico Mundial em Davos é um chamado para refletir sobre a combinação entre urgência, responsabilidade e a proteção da força de trabalho no longo prazo. Ao acompanhar os painéis do Fórum e os diversos temas de sua agenda, pense nas implicações para a sua organização, em como revisitar sua estratégia de talentos e em como desenvolver resiliência organizacional diante de mudanças tão rápidas.
*Rachel Wells é fundadora e CEO da Rachel Wells Coaching, uma empresa dedicada a desbloquear o potencial de carreira e liderança para a GenZ e os millenials.

