Brasileiros Contam Como É Trabalhar na Finlândia, o País Mais Feliz do Mundo

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Quando o Relatório Mundial da Felicidade, publicado pela Universidade de Oxford em parceria com a consultoria Gallup e a ONU, divulgou sua edição de 2026, não houve surpresa no topo da lista: pelo nono ano consecutivo, a Finlândia ocupa o primeiro lugar. Lar de 5,65 milhões de pessoas, o país nórdico, conhecido por seus invernos rigorosos e pela população introspectiva, desbancou mais uma vez potências econômicas mundiais e destinos de clima tropical.

Mas, afinal, o que faz dos finlandeses o povo mais feliz do planeta? O ranking avalia seis fatores principais: PIB (Produto Interno Bruto) per capita, apoio social, expectativa de vida saudável (quantidade de anos que se espera viver com saúde), liberdade para fazer escolhas de vida, generosidade e percepção de corrupção.

Na Finlândia, a felicidade não se traduz em euforia constante ou festas calorosas, mas na confiança nas instituições, na segurança do dia a dia e no respeito inegociável ao equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

O que é felicidade na Finlândia?

O conceito de felicidade no país nórdico pode parecer inusitado para quem cresceu no Brasil. “A felicidade do brasileiro está muito ligada a estar em um boteco, batendo papo, tomando cerveja e cantando pagode no sábado à tarde, por exemplo”, diz Kleber Carrilho, brasileiro que trabalha como professor e pesquisador de ciências sociais na Universidade de Helsinque desde 2022. “Aqui, a ideia de felicidade tem a ver com segurança. Não só em relação à não violência, mas à segurança de futuro.”

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Acervo pessoalKleber Carrilho durante uma das aulas na Universidade de Helsinque

Para a brasileira Aline Izabel, gerente de networks e ecossistemas na Business Helsinki (departamento de desenvolvimento econômico da capital da Finlândia), que mora no país há quatro anos, o principal diferencial é não se desgastar com preocupações básicas. “É uma felicidade simples. Você tem o que precisa e não se estressa. Tudo aqui funciona. Você pode confiar no sistema público e nas pessoas.”

O título de país mais feliz do mundo ainda arranca risadas dos próprios moradores locais. “Toda vez que a Finlândia sai no ranking, meus colegas aqui brincam: ‘Com esse frio, como pode, gente?’”, diverte-se Drussila Hollanda, brasileira que vive no país há 20 anos e atua como head de New Games na multinacional de tecnologia Supercell. “Mas quando você olha do ponto de vista do que faz um país feliz por esses rankings, é qualidade de vida. A gente tem segurança e as coisas funcionam, independentemente da sua classe social.”

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Acervo pessoalPara Drussila, a segurança de andar na rua sem medo compensa o frio extremo

O segredo do bem-estar na Finlândia

Embora a Finlândia seja o 22º país com o maior custo de vida do mundo, segundo o ranking da Numbeo, plataforma que mapeia os custos financeiros em diferentes nações, os salários costumam acompanhar a realidade e a ampla rede de benefícios estatais compensam os gastos cotidianos. “Todo mundo fala: ‘Nossa, o mercado é super caro’. Mas eu não tenho as despesas que teria no Brasil”, afirma Kleber, citando como exemplos a educação pública, o sistema de saúde acessível e de qualidade e o seguro-desemprego.

A Finlândia também aparece como o segundo país menos corrupto do mundo, atrás apenas da Dinamarca, segundo o Índice de Percepção da Corrupção 2025, publicado pela Transparência Internacional, organização global que monitora a integridade no setor público de mais de 180 países.

Entre os países da OCDE, também lidera a lista de qualidade do meio-ambiente e figura na sexta posição no ranking de bem-estar. “No meu antigo trabalho, ia até outra cidade pedalando por 40 minutos por um caminho lindo, cheio de pontes entre ilhas. Hoje, antes de ir andando até o escritório, faço uma caminhada e vejo o mar. Esse contato com a natureza é muito importante”, diz Aline.

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Acervo pessoalAline Izabel em uma de suas trilhas durante o inverno na Finlândia

Licença-parental e igualdade de gênero

A política de licença parental também ajuda a explicar por que a Finlândia atrai talentos de outros países e está entre os líderes de equidade de gênero.

Em agosto de 2022, o país implementou um modelo que concede 160 dias úteis de licença paga para cada um dos genitores, somando 320 dias úteis (cerca de 14 meses corridos).

As regras não fazem distinção de gênero, incluem plenamente pais solteiros, casais adotantes e homoafetivos, e permitem transferir até 63 dias da cota para o parceiro. “Fiquei em casa por 13 meses quando tive meu filho”, conta Drussila. “Vejo também muitos homens tirando os meses de licença, e isso cria uma sociedade muito mais igualitária.”

O professor da Universidade de Helsinque viveu isso na prática ao ter seu filho. Ele ressalta que o arranjo — que garante cerca de 70% do salário durante o afastamento — não apenas fortalece os laços familiares, como também distribui de forma mais equilibrada a pressão sobre as carreiras. “Senti um pouco do que as mulheres sentem sozinhas em outros ambientes, porque tive que abandonar uma parte do projeto quando meu filho nasceu.”

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Acervo pessoalKleber teve seu filho na Finlândia há dois anos

Equilíbrio entre trabalho e vida pessoal

Na Finlândia, a rotina profissional é desenhada para ser eficiente e garantir que o profissional tenha tempo e energia para viver fora do escritório. Um exemplo disso é a forma como eles encaram o horário de almoço, algo raro por lá. “Não porque os profissionais não têm direito, mas porque eles não querem. Fazemos muitos ‘brown bag meetings’, em que cada um leva o seu lanche [no saquinho] e vai comendo durante a reunião”, conta Kleber. “Ninguém está preocupado com almoço longo, o foco é o equilíbrio com a vida pessoal.”

A legislação local define uma jornada de trabalho que não deve exceder oito horas por dia ou 40 horas por semana, e não proíbe acordos de horários em que a jornada de trabalho seja inferior. “É normal chegar às 9h e sair às 17h, ou até às 16h se precisar pegar os filhos na escola”, diz Aline. “Estamos focados no resultado. Ninguém está contando as horas para mim”, afirma Drussila.

O ambiente de trabalho é marcado por uma forte horizontalidade na gestão (as chamadas flat hierarchies), em que as relações são menos pautadas em títulos e mais na colaboração direta. “É muito fácil navegar nas organizações e implementar novas ideias”, aponta Aline.

Para garantir que o profissional chegue focado e relaxado, as empresas costumam investir em benefícios de bem-estar. “Na Supercell, podemos escolher entre um cartão de transporte ou uma bicicleta que será sua enquanto você trabalhar aqui”, conta Drussila, que leva cerca de 15 minutos para chegar ao trabalho caminhando. “Também é comum ter um orçamento para usar em cinema, eventos de cultura ou esporte. Não é só vale-alimentação.”

Desafios da adaptação: o inverno extremo, o idioma e a introspecção

Ainda que as promessas soem como uma utopia corporativa, residir na nação mais feliz do mundo demanda uma dose extra de resiliência dos profissionais brasileiros. O primeiro grande desafio é climático: o inverno finlandês é marcado pela escuridão e pelo frio impiedoso. “O clima aqui define muito da personalidade. A gente não está falando de um inverno de 10 graus, e sim de menos 25”, pontua Kleber. “A vida continua, só que fica silenciosa.”

Enquanto isso, no verão, o “sol da meia-noite” ilumina o céu e transforma o humor nacional. “Quase não tem noite e todo mundo fica alegre e sai para as ruas.”

Para enfrentar os altos e baixos das estações sem prejuízos à saúde mental, o movimento é essencial na rotina. “No inverno, comecei a patinar no gelo. Agora no verão, vou começar a velejar. As pessoas são muito ativas e estão sempre em contato com a natureza”, diz Aline.

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Acervo pessoalEntre as atividades que adotou após chegar na Finlândia, Aline fez um curso para aprender a colher cogumelos

O segundo grande entrave para os profissionais é o idioma. A barreira costuma fechar portas do mercado de trabalho para cônjuges que chegam acompanhando profissionais já contratados para atuar no país. “Na língua não existe preposição. Existem umas 15 variações de cada palavra. É muito difícil, a sensação é de analfabetismo”, explica Kleber.

Para a sorte dos expatriados, a maioria da população fala inglês, o que facilita a transição. Mesmo após vinte anos no país, Drussila Hollanda não se considera fluente no finlandês. “Na área de tecnologia, o inglês é a nossa língua”, diz. “Em todos os lugares, quando as pessoas percebem que você não sabe falar, mudam rapidamente para o inglês.”

Apesar do choque cultural ao viver em um país frio, onde as pessoas raramente se abraçam ou conversam nos corredores do escritório, voltar ao Brasil não está nos planos dos profissionais. “Gosto muito de São Paulo, mas aqui se eu esqueço a carteira no ônibus, posso voltar para buscar depois de dias. Consigo morar a 200 metros de uma floresta”, avalia Kleber.

“Quando vou ao Brasil, sinto falta de muita coisa, mas também me lembro das burocracias e de ter que andar na rua se preocupando. Perder essas liberdades é muito difícil”, completa Drussila.



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