O RH morreu. É o que diz a fundadora e CEO da Gupy, Mariana Dias. “O que existe agora é a área de recursos humanos e autônomos, que estamos chamando de RHA”, explicou à Forbes durante o HR4 Results, evento que reuniu cerca de sete mil pessoas na última semana. “É uma das áreas mais imersas nessa grande transformação da inteligência artificial.”
À frente da companhia brasileira líder em tecnologia para recursos humanos, fundada há 11 anos, Mariana acompanha de perto a evolução do setor. “Na era da IA, o RH ficou ainda mais estratégico”, afirma.
Nos painéis e workshops do evento, a inteligência artificial dominou a agenda. Um dos temas centrais foi a ascensão dos agentes autônomos. “Assim como as pessoas, agentes de IA que fazem atendimento, por exemplo, vão precisar refletir os valores e a cultura da empresa.”
Ela também cita o caso do iFood, que hoje tem 9 mil agentes e 8 mil funcionários. No palco do evento, o CEO Diego Barreto detalhou a criação de uma plataforma interna que permite a qualquer colaborador desenvolver seus próprios agentes de IA, que depois podem ser utilizados por toda a companhia. Na área de atendimento ao cliente, o Self-Help CROSS auxilia as equipes a realizarem dezenas de análises em segundos, um processo que antes levava o dia todo.
Meu emprego está seguro da IA?
“A IA está criando ‘super-workers’, pessoas que produzem muito mais ao abraçar essas ferramentas”, afirma a CEO da Gupy. “Por outro lado, quem não se adaptar não terá espaço.”
A transformação é acelerada. Segundo projeção do Fórum Econômico Mundial, mais de 90 milhões de empregos estarão obsoletos até 2030, enquanto 170 milhões de novas posições devem surgir. “Funções desaparecem, outras nascem. O papel do RH é ajudar as pessoas a atravessar essa transição sem medo.”
Para a empresária, o avanço tecnológico aumenta a necessidade de humanidade nas organizações. “Em um mundo com amplo acesso à tecnologia, o diferencial está em criar significado, cultura e pertencimento.”
Ela aponta três grandes crises atuais: relevância, capacidade e saúde mental. “Muita gente se pergunta: ‘Se a IA pensa e decide melhor do que eu, qual é o meu papel?’”
Epidemia de saúde mental
O avanço da IA também pode ampliar desigualdades, ao acelerar o gap de aprendizado. Ao mesmo tempo, em um mundo tão conectado, vivemos uma crise de saúde mental sem precedentes. No Brasil, dados do Ministério da Previdência Social mostram que, em 2025, houve mais de 546 mil afastamentos por questões de saúde mental –- o segundo maior número da série histórica.
A atualização da NR-1, prevista para entrar em vigor em maio, tenta responder a esse cenário ao exigir o gerenciamento de riscos psicossociais nas empresas.
O papel da liderança e do RH
Mais do que cumprir exigências legais, os líderes terão papel decisivo. “É preciso querer aprender, ser autodidata, investir em lifelong learning e entender onde está o seu diferencial”, diz Mariana. “Também é fundamental criar ambientes em que as pessoas possam testar, errar rápido e aprender.”
A comunicação é outro ponto crítico. “As pessoas estão com medo, e o líder precisa controlar a narrativa.” Mariana reconhece que a pressão também atinge quem lidera (inclusive ela mesma). “Essa sensação de estar sempre ficando para trás em meio a tanta informação pode paralisar.”
Ainda assim, o saldo é positivo. “A IA não só automatiza tarefas, mas amplia nossa capacidade criativa. Pode nos ajudar a desenvolver novos produtos e serviços e até curar o câncer”, diz. “Estou otimista com a construção desse novo mundo.”
