Antes mesmo de escolher qual carreira seguir, a francesa Marie-Berengere Chapoton já sabia que seu caminho seria pelo mundo. Em 25 anos na hotelaria de luxo, passou por 11 países, liderando operações em Roma, no Rio de Janeiro – onde seu filho nasceu – e no Bahrein, apenas para citar algumas.
Desde o final do ano passado, está de volta ao Brasil, agora à frente do Rosewood São Paulo, hotel cheio de personalidade que une brasilidade, arquitetura, arte e gastronomia no coração da cidade: está localizado na Cidade Matarazzo, na Bela Vista. “Foi como voltar para casa”, diz.
Em 2013, chegou ao Rio de Janeiro, grávida, para liderar a transformação do Caesar Park no Sofitel Ipanema. “Era um projeto ambicioso de levar uma nova localização para a marca”, conta a francesa. Nessa temporada como carioca, viveu dois grandes eventos esportivos no país: a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada do Rio de 2016. “Para um hoteleiro, isso cria uma conexão inexplicável.”
Formada em gestão de hospitalidade pelo Glion Institute, na Suíça, Marie também fez MBA na França e um programa de liderança na Universidade Cornell, nos EUA, em 2024. Ela retorna agora a uma capital depois de trabalhar em resorts e morar em uma ilha. Passou os últimos cinco anos no Bahrein, onde liderou a abertura de um hotel, e os dois anos anteriores nas Bermudas.
No início da carreira, trabalhou por um ano e meio na França e depois, como planejado, foi para o mundo. Começou como garçonete em Manchester, na Inglaterra. Logo depois, foi a Nova York como recepcionista. “O gerente do hotel confiou em mim e me deu muita responsabilidade. Cresci muito dentro da operação.”
Em mais de duas décadas no Grupo Accor, liderou hotéis das marcas Sofitel, Fairmont e Raffles, à frente de aberturas, reposicionamentos de marca e grandes eventos. Para chegar ao topo, acumulou experiência em diferentes áreas, de finanças ao RH. “Às vezes, tentamos planejar uma carreira, mas quando não se planeja, é quando você cresce mais forte e mais rápido.”
Com essa visão, aceitou propostas para trabalhar em diferentes cantos do globo, como Vietnã, Canadá e Uruguai. “Não tive barreiras de mobilidade. Pensava em ganhar experiência, buscar desafios.” Marie construiu essa trajetória global com intenção, motivada pela criação dos pais globetrotters. “Não passávamos as férias na França”, conta. Ainda pequena, conheceu destinos como Índia e Tailândia.
A seguir, a diretora-geral do Rosewood São Paulo relembra momentos marcantes de sua carreira, do início como recepcionista até a liderança de grandes hotéis de luxo ao redor do mundo.
Forbes: Quando chegou ao Rosewood? Qual a sua relação com o Brasil?
Marie-Berengere Chapoton: Cheguei no final de setembro. Estava no Oriente Médio há cinco anos. Tive uma experiência extraordinária em 25 anos na hotelaria de luxo. A minha passagem pelo Brasil foi um momento importante da minha vida. Do lado profissional, porque o projeto em que estava trabalhando na época era a transformação do Caesar Park no Sofitel Ipanema. Era um projeto muito ambicioso de levar uma nova localização para a marca. Durante esse período, teve Jogos Olímpicos e Copa do Mundo. Para um hoteleiro, abraçar dois grandes eventos mundiais cria uma conexão inexplicável. E, depois de muitos anos, a conexão com os clientes e com a equipe está muito forte. Além disso, tem um parênteses: meu filho nasceu no Brasil. Cheguei grávida e fiz o parto aqui. Ele cresceu como carioca, falando português antes de falar francês. Foi uma conexão emocional, além da conexão profissional, bem forte.
O que te fez aceitar o convite para voltar para cá, agora em São Paulo?
Quando tive essa oportunidade de voltar para o Brasil, não pensei duas vezes. Primeiro porque a marca Rosewood, para mim, hoje lidera a hotelaria de luxo e está com uma trajetória muito ambiciosa. E em segundo lugar, a emoção de estar de novo em um país que conheço bem e onde tive muita conexão. Estava carioca, agora estou me transformando em paulistana. Acho que é um bom momento para ser paulistana, e naquela época era bom estar no Rio.
Por que é um bom momento para ser paulistana?
Porque eu iniciei minha carreira em grandes cidades: Nova York, Montreal, Milão, Roma. Depois, fui para destinos de resort ou de praia, como Rio de Janeiro, Bermudas, Bahrein, que é uma pequena ilha no Oriente Médio. É o momento perfeito de voltar para uma capital. Depois de uma desconexão, trabalhando nos resorts, vivendo em uma ilha, tenho um interesse ainda maior em me conectar de novo com a cultura, a arte e a gastronomia.
Por que você acredita que foi escolhida para liderar o Rosewood no Brasil? Como seu momento profissional se alinhou ao do hotel?
Sou uma pessoa que gosta de novos desafios e de sair da zona de conforto. Depois de 25 anos dentro da hotelaria de luxo, com o mesmo grupo, para mim foi um desafio vir para o Brasil com uma nova marca. Para o Rosewood, acho que a minha experiência internacional foi importante. Trabalhei em mais de 11 países; Rosewood é a quarta marca. Quando você viaja, está aberto para se adaptar a novas culturas, tem um entendimento da hotelaria de luxo, da cultura, da arte, da música, que são os pilares do hotel. Tenho um conhecimento profundo da cultura, conheço o país. É como se nunca tivesse deixado o Brasil. Foi como voltar para casa. Conhecer o país é um acelerador para se adaptar mais facilmente. Acho que vou contribuir com toda a experiência que tive em outros países e meu entendimento da cultura brasileira para continuar a elevar o posicionamento do Rosewood em São Paulo.
Qual o momento do hotel hoje? Quais mudanças você já está liderando?
O hotel abriu as portas quatro anos atrás com cinco pilares fundamentais: cultura, arte, música, gastronomia e design. Temos que pensar de uma maneira criativa como vamos dar continuidade e inovar nesses pilares, investindo no que faz do hotel um sucesso. Depois, vamos ter um investimento humano importante para continuar a elevar a excelência do serviço com os butlers (mordomos). São as pessoas que realmente fazem a magia e a curadoria da experiência do cliente.
Algo que vai ser muito importante na estratégia é investir e elevar as experiências dentro das nossas suítes, que são como uma casa brasileira dentro do hotel. E, por último, os eventos, que estão entre os pilares estratégicos do business. Já fizemos mais de 680 casamentos e vamos continuar a criar mais experiências e também eventos corporativos.

Essa carreira internacional, com passagens por 11 países, foi algo que você buscou ativamente?
Desde pequena, eu sempre viajei muito. Nunca passei as férias dentro da França com os meus pais. Eles amavam viajar. No final dos anos 1960, eles já estavam viajando pela Índia, Indonésia, Estados Unidos. Há 40 anos eu fui para a Índia pela primeira vez. Passei as férias na Tailândia, no Canadá, e depois viajando pelo mundo. Então, eu cresci com vontade de morar fora da França, qualquer que fosse o meu trabalho no futuro. Como uma pessoa determinada e apaixonada por tudo o que faço, estudei na Suíça e fiz MBA na França e depois viajei pelo mundo.
Já sabia que iria trabalhar com viagem de alguma maneira?
Sim, desde o início. Trabalhei na França por um pequeno período de um ano e meio, na sede do corporativo do Grupo Accor. Tive a oportunidade de trabalhar com o Comitê Executivo, com o COO na época. Surgiram oportunidades dentro do grupo e as pessoas confiaram em mim e me disseram que eu tinha que ir para a Itália, para o Uruguai, para o Brasil. Eu gosto da aventura, e agora você entende o motivo.
Como foi o início da sua carreira?
Minha primeira responsabilidade foi como garçonete, em Manchester, no Reino Unido. Ainda estava na faculdade. Foi o meu primeiro passo. Depois, foi abrir um hotel, que é um ponto forte da minha carreira também: fiz quatro aberturas e dois reposicionamentos. Realmente gosto de desafios. O primeiro foi no Sofitel Nova York, onde fui como recepcionista. O gerente do hotel confiou em mim e me deu muita responsabilidade. Fui garçonete, gerente de relações com os hóspedes… Cresci muito dentro da operação. Depois, tive a chance de fazer uma segunda abertura, no Sofitel de Montreal, em 2002, onde tive a experiência do RH.
Era algo que você queria?
Não queria fazer carreira dentro do RH, mas, obviamente, ter a exposição e o aprendizado me desenvolveu como líder. Às vezes, tentamos planejar uma carreira, mas quando não se planeja, é quando você cresce mais forte, mais rápido. Depois, tive a chance de trabalhar na parte de finanças. Fui responsável pela auditoria para México, Estados Unidos e Canadá para todas as marcas. Foi uma oportunidade de entender a parte de finanças, a importância dos proprietários e dos processos internos. Sem saber, ao longo do meu percurso, fui desenvolvendo uma expertise que agregava cada vez mais valor. E depois tive essa oportunidade de trabalhar na sede com o CEO, que me deu uma visão estratégica.
Qual foi a importância dessas experiências em diferentes áreas do hotel, desde recepcionista, garçonete, para chegar à posição de gerente geral?
É um aprendizado para a vida. Quanto mais você descobre o hotel, mais você se fortalece. É realmente uma oportunidade, uma força enorme.
Qual foi sua primeira experiência à frente de um hotel?
Tive minha primeira oportunidade de gerência de hotel com 30 anos. A minha líder na época, Dominique Colliat, confiou em mim, e disse: ‘Você tem que ir para a Itália assumir o Sofitel de Roma’. Só pensei que tinha que ir. Foi um desafio enorme trabalhar em um novo país, em uma posição de grande responsabilidade. Na época, era a gerente mais jovem. Primeira GM mulher fora da França.
Você se sentia pronta?
Por fora, estava pronta. No interior, tinha algumas dúvidas. Um ponto forte da minha personalidade é que quando surge um problema, eu sempre vejo a solução. Então, sim, estava frente a um grande desafio, tive muitos dentro da missão do hotel. E realmente conseguimos fazer grandes coisas com a equipe na época.
Já falava italiano?
Não, aprendi lá. Quando fui ao Uruguai aprendi o espanhol e português quando cheguei no Brasil.
Como foi liderar um hotel pela primeira vez?
França e Itália estão perto, mas são bem diferentes. O Sofitel em Roma é um hotel boutique, com cem quartos, um restaurante e um bar. Não era muito grande como operação, mas me deu a oportunidade de tocar todos os departamentos. Como não tinha um número dois, me envolvi muito e me desenvolvi como gerente. Depois precisei mudar completamente a estratégia do hotel. Não sei se estávamos ambiciosos, loucos, apaixonados ou um pouco de tudo, mas conseguimos. Hoje o hotel está um sucesso. Fiquei quatro anos e me chamaram para o Uruguai para fazer uma nova abertura.
E como foi essa experiência?
O Sofitel Montevideo Casino Carrasco, que é um hotel incrível, passou por mais de sete anos de reforma. Cheguei um ano antes da abertura, sozinha, sem equipe, com os proprietários. Montei a equipe, abrimos depois de seis meses. Logo depois, estava grávida e meu chefe, responsável pela América Latina, baseado no Rio, falou: “Marie, fizemos uma aquisição do Caesar Park, no Rio, e preciso de você lá”. Cheguei no Brasil com cinco meses de gravidez.
Que competências ou experiências te fizeram ser escolhida para estar à frente da abertura de novos hotéis?
É uma relação win-win. Tinha experiência de aberturas e reposicionamentos, sempre tive um mindset aberto, adaptável, flexível. Também não tive barreiras de mobilidade, pensava em ganhar experiência, buscar desafios. Já tinha um background sólido em abertura e depois me chamaram para fazer o Raffles Bahrain.
Nesses 25 anos de carreira na hotelaria de luxo, qual foi a maior lição que você aprendeu?
A importância de respeitar as pessoas, as culturas, e ter humildade como líder e uma mentalidade aberta, de ouvir. Tive a chance de trabalhar com líderes muito fortes e desenvolvi um apetite para tomar riscos. Isso é importante para ser um líder que pensa fora da caixa e que eleva o potencial do business. Ser criativo, inspirar as equipes para que possamos continuar a elevar o retorno do negócio, que é a nossa primeira responsabilidade.
Quais foram os desafios mais marcantes?
Nunca estamos preparados para a emergência. Estava em Nova York durante o 11 de setembro. Foi um grande aprendizado de gestão de crise. Depois, teve outra situação que não vou contar em detalhes, mas minha posição, por ser mulher, não foi reconhecida. Foi 18 anos atrás, quando era gerente na Itália, em uma reunião fora do hotel, e me marcou muito. Era a única mulher, com 20 homens, a maior parte deles com mais de 60 anos. A diversidade, hoje um tema muito falado, na época era menos reconhecida. Foi um momento importante da carreira e um aprendizado para a vida, quando precisei me desenvolver para ser mais forte.
Nesse sentido, como foi sua experiência no Oriente Médio?
Foi uma experiência incrível. As pessoas têm uma percepção errada. Falando sobre o Bahrein, que eu conheci, é incrível o reconhecimento das mulheres, a nível profissional e pessoal. Eu era a única mulher apresentando os resultados para 20 homens e fui super respeitada e acolhida.
O Bahrein está vivendo uma transformação nesses últimos anos. E abrir as portas deste país que está investindo muito na hotelaria de luxo foi um momento muito forte. Foi um sucesso, tivemos a oportunidade de ter a família real, que estava abraçando a abertura, a presença do rei, que estava orgulhoso. Foi um grande momento para o país..
Desde a sua primeira experiência como gerente geral na Itália até hoje, como você observa o avanço da liderança feminina na hotelaria de luxo? Tem observado um crescimento?
Sim, definitivamente. Muitas empresas internacionais, de marca hoteleira, têm investido na liderança feminina. Isso aconteceu nos últimos 10, 15 anos. E existe uma transformação grande do posicionamento da mulher como líder dentro das empresas. Quando estava no Brasil, o Grupo Accor tinha mais de 30% de mulheres como gerentes gerais. No Rio, tinha a Andréa Natal no Copacabana Palace, a Cristina Freire no Fasano, a Rosana Okamoto no JW Marriott. Éramos todas mulheres. O Brasil estava à frente. Mas na Arábia Saudita, por exemplo, as primeiras lideranças femininas vieram há dois, três anos. Está avançando. Em Dubai, tem mais e mais mulheres líderes. No Bahrein, éramos duas. Na Europa e nos EUA está mais avançado. Existe um movimento.
Como foi a experiência de ter um filho no Brasil?
A gravidez foi super boa para mim. Estava grávida, mas continuei com o ritmo normal de uma hoteleira, trabalhando muito. Recebi muito carinho da equipe quando cheguei ao Brasil, tive muita conexão com as mulheres. Até o dia do parto, estava trabalhando na apresentação do budget com a minha equipe. No dia seguinte, teria o parto ou o budget, mas meu filho decidiu nascer.
E depois? Como conciliou a maternidade com a vida hoteleira?
Levei meu filho para a França e a Itália porque meu marido é italiano. Passei dois meses e depois voltei a trabalhar. Meu marido estava em São Paulo e organizamos a vida com o bebê e o trabalho. Muitas mulheres e mães me perguntam como consegui, mas acho que as pessoas se colocam no problema antes de ver a solução. Fazem muito mais perguntas do que deveriam. Uma parte do sucesso da minha carreira é que eu nunca questionei muito, sempre fui pelo desafio e pela confiança que me dão.
Seu marido ainda mora no Brasil?
Não, ele trabalha com varejo de luxo em Dubai. No mesmo mês, quando recebi a proposta do Rosewood, ele recebeu outra. Tomamos uma decisão, juntos. E realmente nos apoiamos. Ele falou “Você tem que ir”. Isso não tem preço. Temos a mesma mentalidade, estamos no mesmo caminho. Apoiamos um ao outro nos desafios profissionais porque precisamos do bem-estar dentro do nosso trabalho para ter equilíbrio na vida pessoal. Isso é um valor que nem todo mundo pode ter, porque se pensa diferente.
O que o universo do luxo pode ensinar para líderes de outros setores e mercados?
Estamos em uma indústria de pessoas para pessoas. É sobre personalização e curadoria de experiências. Quando você vê as marcas de luxo do varejo, como Hermès, Louis Vuitton, tem algo que elas estão transmitindo dentro da história do produto. Na hotelaria de luxo, nosso hotel é único por seu posicionamento e sua história. Vamos abraçar o story sharing e storytelling ainda mais porque o hotel tem uma riqueza de histórias que é uma força e permite uma conexão muito especial com os clientes. Os brasileiros descobrem uma parte do Brasil através desse hotel, e os estrangeiros ficam fascinados.
O que você busca em uma pessoa para trabalhar com você?
Personalidade e curiosidade são importantes. É isso que eleva a experiência do hotel. Temos 700 talentos hoje. A parte técnica sempre dá para aprender e refinar, mas a personalidade da pessoa realmente tem um impacto maior.

Quantos países você já conheceu?
Não sei. Viajei por todo o mundo. Mais de 50, 60. Nunca contei. Tenho uma exigência que é esquiar todo ano. Isso é muito importante para mim, principalmente na França e na Suíça. É uma paixão que tenho, além de mergulho, golfe e tênis. Não estou consistente por motivos de tempo, mas realmente gosto de fazer novos esportes. E também gosto de descobrir arte, música, cinema. Realmente preciso viajar para descobrir, aprender, me conectar com pessoas novas.
O que ainda gostaria de fazer e conquistar?
Tem muitos lugares no mundo que gostaria de descobrir. Fui ao Nepal e ao norte da Índia, mas não conheço o Butão e o Tibete. São dois destinos que gostaria de conhecer. Continuar a descobrir a Indonésia, porque são muitas culturas dentro de um país. Viajar e ter experiências extremas. Gostaria de ir à Antártica e também ao Polo Norte, Nova Zelândia, países da África que não conheço bem, Mongólia. E também o Irã e o Afeganistão, que são países um pouco mais fechados, mas tão ricos.
