Existe uma conversa cada vez mais presente e necessária sobre o tal do “nepo baby”. Filhos de pessoas bem-sucedidas que entram no mesmo mercado, muitas vezes nas mesmas empresas, e que carregam consigo o peso inevitável do sobrenome.
Eu penso bastante sobre isso, especialmente porque hoje vivo essa experiência dentro de casa. Meu filho Matheus trabalha na empresa da qual sou sócia. E seria ingenuidade fingir que isso não traz privilégios. Claro que traz. Ele teve acesso mais cedo a certas conversas, entendeu desde jovem como funcionam os bastidores de um negócio, cresceu observando decisões, negociações, erros e acertos. Isso, por si só, já é uma vantagem. Negar isso seria desonesto.
Mas privilégio não precisa ser sinônimo de atalho. Pode e deve ser ponto de partida para mais responsabilidade. Dentro de casa, sempre conversamos muito sobre isso: sobre como acesso não substitui preparo, como oportunidade não elimina a necessidade de esforço e principalmente, sobre como a régua precisa ser ainda mais alta quando você chega com um sobrenome conhecido.
O que tenho buscado fazer é algo que considero essencial na dinâmica da empresa: garantir que ele tenha espaço para construir a própria trajetória. Isso significa aprender com os próprios erros, lidar com desafios reais e, sobretudo, ser cobrado como qualquer outro profissional da equipe. Existe um equilíbrio delicado entre abrir a porta e pavimentar o caminho inteiro.
A porta, muitas vezes, já está aberta pela história da família, mas o percurso, a consistência, a construção de reputação precisa ser individual. Nenhum sobrenome sustenta uma carreira se não vier acompanhado de trabalho, responsabilidade e capacidade de entrega.
No fim das contas, sobrenomes podem abrir conversas, mas são as atitudes e entregas que devem sustentar qualquer trajetória. E essa é uma lição que vale para todos nós, dentro ou fora de qualquer herança profissional.
*Juliana Ferraz é sócia da Holding Clube e tem quase 30 anos de carreira no universo da comunicação e eventos no Brasil.
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