À medida que a inteligência artificial se torna parte da rotina profissional, o desconforto inicial passa a dar lugar a um otimismo cauteloso. Especialistas apontam uma mudança de mentalidade: em vez de algo que trabalha para nós, a IA passa a ser vista como uma tecnologia que trabalha conosco.
A mentalidade da “IA como colega de trabalho” ganha força nas empresas e pode transformar a ferramenta em um dos principais aliados no trabalho. Para quem ainda resiste, o maior risco é ficar para trás enquanto colegas aprendem a usá-la de forma estratégica para ganhar vantagem na carreira.
Lideranças já veem a IA como parte da equipe
Encarar a “IA como colega de trabalho” não significa que um robô humanoide vai puxar uma cadeira para trabalhar do seu lado. É uma metáfora criada para tranquilizar os profissionais: embora a tecnologia possa redefinir funções, ela não elimina a necessidade de pessoas. Empresas que vão da OpenAI a Anthropic já apostam fortemente nesse conceito.
De acordo com o relatório Digital Work Trends, da plataforma de inteligência de dados Slingshot, 41% dos líderes já enxergam a IA como mais um membro da equipe, mas os colaboradores ainda não estão convencidos. Para a maioria deles, a tecnologia continua sendo vista mais como uma ferramenta útil (52%) do que como um colega de trabalho (20%).
Mesmo entre profissionais da Geração Z (28%) e Millennials (24%) — os mais propensos a ver a IA como companheira de equipe —, existe cautela. Para muitos, o potencial colaborativo da tecnologia também representa uma ameaça competitiva: 19% da Geração Z e 17% dos Millennials temem ser substituídos pela IA.
Mudança geracional
Outro estudo, da empresa de tecnologia Checkr, especializada em verificação de antecedentes e soluções de contratação digital, também revela uma divisão entre gestores e colaboradores sobre o papel da tecnologia em 2026. Segundo o relatório, 64% dos líderes sentem pressão para adotar a IA para se manter competitivos, contra 38% dos colaboradores. Além disso, 58% dos gestores acreditam que a IA está se tornando um requisito implícito para os empregos — percepção compartilhada por apenas 29% dos profissionais.
Embora os “colegas de equipe de IA” ainda não sejam amplamente aceitos pelos profissionais, um estudo da SHL, empresa global especializada em avaliação de talentos e análise de dados de recursos humanos, aponta uma mudança geracional. Cerca de 38% dos recém-formados em posições de entrada já demonstram estar preparados para trabalhar com a IA — superando profissionais mais experientes. Entre líderes, apenas 23% apresentam esse mesmo nível de preparo.
Os recém-formados também superam talentos seniores em competências-chave, como pensamento crítico em contextos de IA (40% com pontuação alta, contra 24% entre líderes) e promoção da adoção da tecnologia (37% contra 21%).
Diante desse cenário, especialistas defendem que empresas repensem seus investimentos em IA e passem a priorizar talentos em início de carreira que já dominam essas habilidades. Para os profissionais em atividade, é hora de entrar nessa onda e considerar a IA como copiloto.
Dicas para aproveitar o potencial da IA no trabalho
Especialistas afirmam que o verdadeiro sucesso acontece quando os profissionais aprendem a tratar a IA como colaboradora — e não como concorrente. Dean Guida, fundador da Slingshot e CEO da Infragistics, empresa global de desenvolvimento de software, compartilha quatro recomendações.
1. Comece a experimentar agora
Os profissionais não precisam se tornar especialistas em IA da noite para o dia, mas adquirir experiência prática desde já é fundamental. Quanto mais você testar ferramentas — seja para redigir documentos, organizar informações ou resumir pesquisas — mais rapidamente ganhará confiança e entenderá onde e como a tecnologia pode melhorar seu trabalho.
2. Use a IA para ampliar seus pontos fortes
A IA não está substituindo todos os empregos, mas está transformando a forma como o trabalho é feito. Em vez de competir com a tecnologia, os profissionais devem usá-la para potencializar suas próprias habilidades.
Quando utilizada com estratégia, a IA pode acelerar tarefas rotineiras e liberar tempo para atividades mais valiosas, como pensamento estratégico, resolução de problemas e criatividade.
3. Pense além da produtividade
Muitas pessoas recorrem à IA apenas para acelerar tarefas como resumir reuniões, escrever e-mails ou revisar trabalhos. Isso ajuda, mas é só a superfície. O verdadeiro valor da tecnologia aparece quando ela é usada para analisar dados, gerar insights e apoiar decisões.
4. Não mantenha a IA em segredo
Um dos desafios atuais nas empresas é que muitos profissionais experimentam ferramentas de IA de forma silenciosa. Embora essa iniciativa seja positiva, mantê-la escondida limita o aprendizado coletivo.
Ser transparente sobre como a tecnologia está ajudando no trabalho pode estimular uma colaboração maior entre equipes — além de ajudar as empresas a entender como os funcionários realmente utilizam essas ferramentas.
*Bryan Robinson é colaborador da Forbes USA. Ele é autor de 40 livros de não-ficção traduzidos para 15 idiomas. Também é professor emérito da Universidade da Carolina do Norte, onde conduziu os primeiros estudos sobre filhos de workaholics e os efeitos do trabalho no casamento.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com
