Se você ainda não usa inteligência artificial no trabalho, corre o risco de ficar para trás — e rápido. Mas é importante falar sobre um risco emergente: a terceirização cognitiva. O termo se refere à tendência de delegar decisões e tarefas que exigem pensamento a essas ferramentas, em vez de fazê-las você mesmo. No ambiente de trabalho, isso acontece quando você deixa uma ferramenta analisar, redigir, resumir ou decidir por você, para que não precise pensar.
Pesquisas mostram que, quando as pessoas dependem da IA dessa forma, pensam com menos profundidade e criticidade, lembram menos do que produzem e têm mais probabilidade de aceitar respostas sem questioná-las. Um estudo de 2025, realizado com mais de 650 profissionais e estudantes, correlacionou o uso intensivo de IA a um declínio no pensamento independente. Isso ocorre porque os usuários delegam à tecnologia o seu próprio processo de raciocínio e tomada de decisão.
O paradoxo da IA no trabalho
Você provavelmente leva seu trabalho a sério, sente o peso da responsabilidade sobre sua equipe, os stakeholders e os resultados da organização. Ao mesmo tempo, está sobrecarregado. Há mais trabalho do que horas no dia e mais informações do que um ser humano consegue processar de forma realista.
Então, naturalmente, você começou a recorrer à IA para redigir e-mails, montar apresentações e compilar relatórios. Isso não é uma falha, mas uma resposta racional ao ritmo insustentável do trabalho moderno. E é exatamente para isso que essas ferramentas existem.
A IA pode, sim, tornar o trabalho mais rápido e fácil, mas há um limite. Quando ela se torna o substituto padrão do pensamento, líderes passam a terceirizar as partes mais valiosas do seu trabalho, incluindo a capacidade de dar sentido às informações e exercer discernimento.
Por exemplo, a IA pode gerar opções e recomendações, mas não consegue ponderar trade-offs nem levar em conta contextos como política interna ou timing. Ela é limitada para enxergar efeitos de segunda ordem (“Se fizermos X, como isso afeta Y?”). Ferramentas podem oferecer ideias tecnicamente corretas, mas estrategicamente equivocadas. Elas não conseguem dizer quando uma “boa prática” não se aplica a essa equipe, neste momento específico.
Quais são os sinais de dependência da IA?
1. Você não consegue ir além do que a IA oferece
Antes das reuniões, você costumava ler os materiais de apoio, digeri-los e chegar com uma perspectiva própria. Agora, você apenas passa os olhos ou pula tudo, porque sabe que pode pedir para a IA fazer um resumo dos pontos-chave. Você aparece com tópicos gerados pela inteligência artificial, em vez de um ponto de vista construído pela sua própria cabeça. Então, quando alguém o desafia ou faz uma pergunta mais aprofundada, você trava. Você não absorveu o conteúdo nem refletiu sobre o tema, então só tem uma compreensão superficial.
2. Seu diferencial desapareceu
Havia um motivo para as pessoas procurarem sua opinião. Você tinha um jeito próprio de ver e dizer as coisas. Agora, seu texto e seu estilo de apresentação são limpos e profissionais, mas genéricos. Além disso, se estiver usando uma ferramenta interna treinada com as melhores práticas e os materiais da empresa, todos ao seu redor estão literalmente bebendo da mesma fonte. Você não se destaca e começa a soar intercambiável com seus colegas.
3. Mais erros passam despercebidos
Quando você escrevia algo por conta própria — uma recomendação, um relatório, um plano —, precisava usar a lógica. Questionava: isso faz sentido? O que estou deixando passar? Onde estão as falhas? Se agora você apenas alimenta uma ferramenta e repassa o resultado com uma leitura rápida, existe um risco maior de a IA partir de uma premissa equivocada e levá-la até o resultado final. Os erros escapam. E, pior de tudo, a IA tem uma habilidade curiosa de soar confiante mesmo quando está errada.
4. Você se sente ansioso sem a IA
Surge um impulso de abrir o ChatGPT assim que aparece um bloqueio. A página em branco parece mais intimidadora do que antes. Você perdeu a paciência com o processo lento e bagunçado de resolver as coisas sozinho. Responder algo de improviso parece arriscado. Há uma voz no fundo da cabeça dizendo que você poderia ter formulado melhor, que existe um jeito “certo” de dizer, e a IA teria encontrado.
5. A IA te atrasa
Muitas vezes, a IA acelera tudo. Pode ser uma forma excelente de lidar com um volume grande de trabalho. Mas se você não tomar cuidado, depender demais dela pode acabar te deixando mais lento. Afinal, o ChatGPT sempre está disposto a dar mais uma sugestão, então você continua ajustando enquanto sua equipe espera. Aquilo que estava bom o suficiente três dias atrás ainda está na sua mesa porque você ficou preso buscando uma versão “ótima” definida pela IA — um alvo que vive mudando.
Como aproveitar o potencial da IA sem ser intelectualmente preguiçoso
1. Forme primeiro o seu ponto de vista
Antes de pedir à IA para resumir algo, leia você mesmo. Antes de pedir tópicos, sente-se com a pergunta por alguns minutos. O que você pensa? O que recomendaria se tivesse que decidir agora? Isso mantém seu pensamento crítico afiado e ajuda a perceber quando a interpretação da IA está deixando algo importante de fora. Além disso, quando você chega ao ChatGPT com um ponto de vista claro, obtém resultados muito mais úteis do que ao pedir uma resposta sem nenhuma direção.
2. Use a IA para refinar, não para produzir
Quando precisar produzir algo, faça você mesmo o primeiro rascunho. Coloque uma versão inicial no papel e depois use a IA para melhorar o fluxo, a estrutura ou a linguagem. Assim, você entende a lógica por trás do conteúdo. Quando alguém fizer uma pergunta de aprofundamento, você saberá responder, porque foi você quem construiu o raciocínio.
3. Proteja seu julgamento
Recorrer à IA no exato momento em que surge a incerteza ou o estresse pode ser uma forma de evasão. Isso corrói sua tolerância à ambiguidade e aos desafios. Toda decisão difícil exige que o líder aceite não saber por um tempo. Se você perder essa habilidade para lidar com as pequenas coisas do dia a dia, não terá esse músculo quando mais precisar.
Então, o que fazer? Faça uma caminhada sem o celular e deixe o cérebro trabalhar no problema. Ligue para um colega e pense em voz alta. Programe um timer de 10 minutos e não abra nenhuma ferramenta até ele tocar. O julgamento é um músculo, e vale mais a pena protegê-lo do que terceirizá-lo no primeiro sinal de dificuldade.
*Melody Wilding é colaboradora da Forbes USA. Ela é coach executiva e ajuda empreendedores sensíveis a prosperar no local de trabalho.
