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Felipe Meneses, de 25 anos, foi o primeiro brasileiro selecionado para o Thiel Fellowship, em março de 2024, e está prestes a encerrar a participação no programa de dois anos criado pelo empresário e investidor bilionário Peter Thiel. Desde 2011, a iniciativa concede US$ 100 mil (R$ 540 mil) a jovens empreendedores com uma condição radical: abandonar a faculdade para se dedicar integralmente aos próprios projetos.
O brasileiro havia ingressado em Stanford em 2018 para estudar ciência da computação, mas deixou a universidade para em 2022 cofundar a Hyperplane, mais tarde vendida para o Nubank. A startup, especializada no uso de inteligência artificial para criar serviços bancários hiperpersonalizados, foi o passaporte para sua seleção. “Eu era um brasileiro construindo algo a partir do Brasil, um caminho bem diferente do perfil típico de quem costuma receber essa oportunidade”, diz Meneses à Forbes. “Mas a empresa estava voando, e isso chamou a atenção deles.”
A conquista, porém, exigiu persistência. “A aprovação veio na segunda tentativa. Apliquei muito cedo da primeira vez, quando ainda não tinha nada relevante construído. Depois, tentei de novo e deu certo.”
Como funciona a bolsa de Peter Thiel
O Thiel Fellowship busca jovens brilhantes que preferem construir algo novo a seguir o caminho acadêmico tradicional. A regra é clara: os participantes não podem ter diploma universitário e, se selecionados, precisam largar os estudos para focar na execução de suas ideias.
A inscrição fica aberta o ano todo no site oficial e exige redações que detalhem a viabilidade, o impacto potencial da proposta e a capacidade de execução do candidato. Após uma série de entrevistas, cerca de 20 jovens são selecionados anualmente.
O subsídio de US$ 100 mil é pago em oito parcelas trimestrais, ao longo dos dois anos de duração da bolsa. “O auxílio financeiro te dá liberdade para não se preocupar com dinheiro, mas a comunidade e o nível de excelência são muito mais relevantes.”
A comunidade do Thiel Fellowship
Os bolsistas têm acesso a uma rede global de ex-participantes, encontros anuais e trocas constantes em um grupo de WhatsApp. “Você lida com pessoas que passaram pelas mesmas dores. Pense: eu, com 21 anos, tentando vender para um banco, dizendo que faria um modelo melhor do que o deles. Parece absurdo, mas todos ali tinham passado por algo assim.”
Entre os empreendedores que já participaram do programa, estão nomes como Vitalik Buterin, cofundador do Ethereum; Alexandr Wang, cofundador da Scale AI; e Ilya Sutskever, cofundador da Anthropic. “Todos trazem essa ideia: ‘Se você quer construir uma empresa de US$ 1 trilhão, por que não? Como vai fazer isso? Se o seu argumento for bom, você tem um negócio’.”
“A bolsa me permitiu acreditar que é possível ter ambições gigantes, e que elas podem ser construídas se você tiver clareza do passo a passo.”
Embora o programa não inclua mentoria formal com o próprio Peter Thiel, os bolsistas costumam ser convidados pelo bilionário para participar de seus eventos. “Geralmente ele convida para encontros em Los Angeles. Ano passado, chamou para uma festa de Natal, por exemplo.”
Aos brasileiros que desejam tentar a bolsa, Meneses aconselha: “Se você tem um problema muito relevante para a sociedade, é obcecado por ele e acredita que está unicamente posicionado para resolvê-lo, você precisa ir lá e resolver.”
De Aracaju ao Vale do Silício
Natural de Aracaju, capital de Sergipe, Meneses descobriu cedo sua veia empreendedora. “Aos 12 anos, comecei a fazer coisas pequenas. Uma vez, peguei um empréstimo de R$ 17 do meu pai, comprei capinhas de celular da China e vendi para os meus amigos.”
Aos 14, ingressou em um projeto acadêmico focado em ensinar matemática avançada a alunos entediados com o currículo escolar. Aos 16, foi selecionado para um curso no IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada). “A ideia era seguir a estrada acadêmica se eu me saísse bem”, lembra. “Mas percebi que a matemática pura era muito teórica, e que eu gostava mesmo era do empreendedorismo.”
Depois de ler “De Zero a Um”, livro de Peter Thiel e Blake Masters, entendeu que o futuro estava na tecnologia. “Decidi ir para o Vale do Silício e aplicar para Stanford”, conta. “Foi duro, mas dei sorte e passei. Brinco que estou sempre jogando dados e caindo no 7.”
Na universidade, mergulhou em IA e se apaixonou por processamento de linguagem natural, mas os estudos foram interrompidos pela pandemia. De volta a Aracaju para o ensino remoto, decidiu tirar um ano sabático e acabou não retornando. “Venho de uma cidade pequena, de onde pouca gente sai. Quando voltei, percebi o quanto a tecnologia podia ajudar a desenvolver a região”, diz. “Lá fora, você vê carros autônomos, máquinas que falam, edição genética, 5G — tudo parece futurista. E aí você volta para casa e não vê nada disso. Por isso quis criar algo aqui.”
O nascimento e a venda da Hyperplane
Fundada em 2022 por Meneses, Felipe Lamounier, Daniel Silva e Rohan Ramanath, a Hyperplane surgiu como uma startup de inteligência de dados especializada em IA para serviços bancários personalizados. “O sistema que os bancos usavam para analisar pessoas se resumia ao score. Eles tinham muitos dados, mas quase todos desestruturados”, explica. “Nossa ideia era treinar modelos capazes de entender o comportamento financeiro e prever necessidades do usuário.”
Ao final do primeiro ano, a Hyperplane levantou US$ 6 milhões (R$ 32,4 milhões) em investimentos de Lachy Groom e gestoras como SV Angel, Clocktower Technology Ventures, Liquid2 Ventures, Crestone VC, Soma Capital, Latitud e Atman Capital.
O passo seguinte foi trabalhar com o Nubank. “Em três meses, a gente treinou 11 modelos juntos — todos melhores do que os que eles estavam usando”, diz o empresário. “Eles falaram: crédito é fundamental para o nosso negócio, então o caminho daqui para frente é se juntar. E para a gente fazia muito sentido.” A venda para o Nubank foi oficializada em junho de 2024.
Os próximos passos de Felipe Meneses
Meneses deixou a Hyperplane há três meses para focar em novos planos. “Não saí porque não acredito no futuro do Nubank. Saí porque vi uma oportunidade que queria atacar de novo.” Depois de se aproximar do então CTO do Nubank, Vitor Olivier, durante a fase pós-aquisição, decidiu construir um novo projeto em parceria com o executivo, que deixou a companhia em agosto. “Percebemos que tínhamos muita afinidade e que existia uma oportunidade enorme na mesa.”
Sem dar detalhes sobre o que estão criando, ele garante que o novo empreendimento não deve competir com o Nubank e adianta que será focado em IA. “Nos últimos dez anos dos serviços financeiros, mobile e cloud permitiram que produtos internacionais fossem disruptados — e essa onda criou o Nubank”, afirma. “Mas o resto permaneceu igual: muito baseado em humanos, cheio de processos antiquados. A gente acha que a IA vai transformar essa outra parte.”

