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E se alguém te dissesse que você nunca mais precisaria trabalhar? Depois que a sua cabeça parasse de girar, você provavelmente perguntaria: “Mas como vou comprar roupas, comida ou pagar minhas contas?” A resposta, segundo Elon Musk, é que milhões de robôs cuidarão de tudo.
Parece absurdo, mas na semana passada, durante o Fórum de Investimentos EUA–Arábia Saudita em Washington, o bilionário disse qual será o futuro do trabalho em 10 ou 20 anos. “Minha previsão é que o trabalho será opcional. Será como praticar esportes ou jogar videogame”, disse. “Se você quiser trabalhar, será da mesma forma que ir ao mercado para comprar vegetais ou cultivá-los no quintal. É muito mais difícil cultivar vegetais, e algumas pessoas ainda fazem isso porque gostam.”
Segundo Musk, a IA não apenas tornará o trabalho desnecessário, como também tornará o dinheiro irrelevante. “Meu palpite é que, se avançarmos por tempo suficiente, partindo do pressuposto de que haverá uma melhoria contínua em IA e robótica, o dinheiro deixará de ser relevante.”
Trabalho opcional vai bater à sua porta?
Uma das maiores preocupações de brasileiros e profissionais ao redor do mundo é conseguir e manter um emprego. As incertezas econômicas levaram as pessoas a adotar uma série de táticas de sobrevivência no mercado, do quiet quitting ao office frogging.
Ao mesmo tempo, startups de inteligência artificial passaram a glorificar a exaustão em nome da produtividade, adotando a “jornada de trabalho 9-9-6”, trabalhando das nove da manhã às nove da noite, seis dias por semana, na tentativa de superar os chineses para “vencer a corrida da IA”.
Mas agora, graças ao avanço tecnologia, o futuro do trabalho pode, na verdade, ser sobre trabalhar menos — ou até não trabalhar nada, segundo Musk. Na sua visão, os dias de excesso de trabalho, de se sentir preso em um emprego que odeia ou de ser pressionado a buscar uma renda extra para fechar as contas chegarão ao fim já na próxima década. Os robôs acabarão com todas as preocupações relacionadas ao trabalho, e você será livre para escolher se deseja trabalhar ou não.
Enquanto muitos discordam, alguns especialistas concordam parcialmente com a previsão de Musk. “Em 20 anos, alguns profissionais altamente qualificados terão a opção de parar de trabalhar graças à automação e aos ecossistemas de software impulsionados por IA”, afirma Ali Gohar, CHRO da Software Finder, plataforma que ajuda empresas a encontrar e comparar soluções de software. “Mas milhões muito provavelmente ainda dependerão do trabalho como uma necessidade.”
“A maior divisão será entre aqueles que poderão se dar ao luxo de não trabalhar e os que não poderão.”
Ali Gohar, CHRO da Software Finder
O executivo destaca que já estamos vendo sinais da previsão de Musk no mercado de SaaS B2B (Software as a Service Business-to-Business). “Muitas funções estão se tornando redundantes como resultado das melhorias em plataformas low-code, copilotos de IA e sistemas back-end altamente automatizados.”
Na sua visão, muitos ainda subestimam o potencial da IA em mudar nossa relação com o trabalho intelectual. “Os softwares assumirão as tarefas monótonas e repetitivas, deixando os humanos focarem em criatividade, estratégia e empatia”, sugere. “Para alguns, isso parecerá opcional. Para outros, especialmente aqueles em funções físicas ou voltadas ao atendimento direto ao público, a tecnologia pode transferir a pressão ‘para cima’, em vez de simplesmente eliminá-la.”
Previsão de Musk é baseada em modelo ultrapassado
Kaz Hassan, diretor de comunidade e insights da Unily, plataforma digital de experiência do colaborador impulsionada por IA, acredita que Musk está medindo o trabalho com base em um modelo ultrapassado, sem reconhecer o real valor das pessoas no mercado. “Nos últimos séculos, medimos o trabalho pela conclusão de tarefas e pelo investimento de tempo”, argumenta. “Quantos projetos foram entregues? Quantas horas registradas? Quantos e-mails enviados? Tratamos a contribuição humana como produção de máquina: quantificável, replicável e escalável.”
Hassan acredita que a IA irá expor a fragilidade desse modelo. “A tecnologia se destaca no reconhecimento de padrões e na otimização de processos, mas não consegue replicar o trabalho contextual que impulsiona o verdadeiro sucesso organizacional”. Entre os comportamentos irreplicáveis, o executivo destaca a intuição estratégica que identifica mudanças de mercado antes de dados, a tradução cultural que ajuda uma força de trabalho distribuída a se unir em torno de um propósito comum e o julgamento para equilibrar prioridades quando não há uma resposta obviamente correta.
Hassan afirma que está vendo isso de perto com clientes corporativos que estão implementando a IA. “Organizações que correm para automatizar tudo estão descobrindo algo desconfortável: o trabalho humano difícil de medir, que elas subestimavam, de repente se tornou sua única vantagem competitiva”, diz. “Otimizamos métricas de produtividade que a IA agora destrói com facilidade, e muitas companhias não têm um modelo alternativo para compreender seu próprio valor.”
Não podemos confundir a automação de tarefas com a eliminação da contribuição humana. Segundo o executivo, as organizações precisam redefinir radicalmente a forma como articulam e recompensam o trabalho humano. “Isso significa abandonar o teatro da produtividade: as reuniões intermináveis, o ‘trabalho ocupado’ performático e as métricas que medem atividade em vez de impacto.”
O que esperar do futuro do trabalho
As empresas campeãs de desempenho na próxima era não serão as organizações que substituírem humanos por IA, e sim aquelas que criarem supertrabalhadores, segundo Hassan. “Esses profissionais vão ser confiantes em seu valor humano e habilidosos em usar agentes de IA para ampliar seu senso crítico, criatividade e impacto estratégico.”
O executivo defende que é preciso reconhecer atividades humanas que não são fáceis de medir, como criar conexões entre pessoas, fazer perguntas que provocam reflexão, ajudar a reinterpretar problemas e construir pontes culturais dentro das empresas. “Esse tipo de atuação é o que permite que as organizações funcionem de forma integrada e com propósito, e não apenas como um conjunto de processos friamente automatizados.”
*Bryan Robinson é colaborador da Forbes USA. Ele é autor de 40 livros de não-ficção traduzidos para 15 idiomas. Também é professor emérito da Universidade da Carolina do Norte, onde conduziu os primeiros estudos sobre filhos de workaholics e os efeitos do trabalho no casamento.

